Aprendizagem na Primeira Infância

Juliana Antola Porto

A aprendizagem nos primeiros anos de vida constitui a base que permitirá todo o desenvolvimento posterior.

O cérebro começa a se desenvolver nas primeiras semanas da gestação, com a formação das células primordiais que darão origem aos chamados neurônios, e das conexões entre os neurônios denominadas sinapses. A estrutura do cérebro é altamente complexa, formada por uma extensa rede de circuitos dos neurônios e seus prolongamentos entre as diversas regiões cerebrais. O processo de desenvolvimento e amadurecimento é contínuo durante toda a infância e adolescência e, para determinadas regiões cerebrais somente se completará no início da idade adulta. Mas, mesmo após o período de maturação, o cérebro continua a se modificar!

Um conceito fundamental em neurociência é o da Plasticidade Cerebral. “Plastos” deriva do grego e significa moldado, que tem capacidade de mudar de forma. O cérebro é um órgão em constante remodelamento em resposta às experiências. Durante toda a vida podemos produzir novas sinapses. As sinapses mais utilizadas se fortalecem, enquanto as que não são utilizadas tendem a enfraquecer, sofrendo a chamada poda sináptica. A formação de novas sinapses e os processos de poda, além de outros mecanismos, estão agrupados no conceito de Plasticidade. Há uma distinção entre a plasticidade que existe durante toda a vida, que é influenciada pela experiência – aprendizagem dependente de experiência – e a que ocorre nos primeiros anos, que necessita de experiência para começar a se desenvolver – aprendizagem expectante de experiência.

FormacaoNovasSinapses

A Primeira Infância, fase compreendida entre 0 a 6 anos é um período crucial de profunda remodelação cerebral. Nessa fase ocorrem os chamados Períodos Sensíveis: momentos nos quais circuitos cerebrais específicos para formação de determinadas habilidades têm maior plasticidade e melhor resposta à determinada experiência ambiental. É o que acontece com a visão e a audição, por exemplo, que necessitam da exposição ao estímulo luminoso e sonoro respectivamente para que as áreas cerebrais responsáveis pelo processamento sensorial se desenvolvam. Por exemplo, a ocorrência de fatores que impeçam ou atrapalhem a visão do bebê, como a catarata congênita, deve ser tratada no início da vida para permitir que a plasticidade cerebral na área da visão seja o mais efetiva possível.

Quanto à linguagem, sabemos que os bebês nascem com a capacidade de distinguir os sons de todas as categorias fonêmicas existentes. Ao longo do primeiro ano de vida, em função dos sons dos idiomas aos quais os bebês são expostos, a capacidade de discriminação fonêmica universal vai se especializando. Para a pronúncia e proficiência gramatical o período sensível se estende até a adolescência. Há evidências extensas que apontam que o desenvolvimento da linguagem na primeira infância é base para o aprendizado pleno da língua posteriormente e está diretamente relacionado ao sucesso na alfabetização e no desempenho escolar.

As funções cognitivas mais complexas, como atenção, memória e raciocínio, por exemplo, também começam a se desenvolver na primeira infância, por meio de habilidades como: controle de impulsos, capacidade de redirecionar atenção e de memorizar regras. Os circuitos cerebrais responsáveis por tais funções são refinados durante adolescência até o início da vida adulta, mas as conexões fundamentais começam a se estabelecer ainda nos primeiros anos de vida.

Portanto, muito antes de a criança entrar na escola, ela aprende em todos os contextos de seus relacionamentos afetivos: em casa com os pais e cuidadores, nos ambientes de educação infantil, nos locais de recreação. A criança está sempre aprendendo!

Os períodos sensíveis são momentos que permitem a construção ótima de habilidades, mas também representam uma janela de vulnerabilidade a potenciais efeitos nocivos do meio. Na primeira infância a estrutura cerebral é altamente receptiva e a ausência de estímulos adequados, ou a ocorrência de estímulos negativos, podem deixar marcas duradouras. Uma famosa metáfora para ilustrar o desenvolvimento desse processo compara a construção da arquitetura do cérebro com a arquitetura de uma casa. Durante os primeiros anos de vida ocorre a formação da base, dos alicerces, da fundação e do piso de uma casa. A partir de uma estrutura sólida e firme podem, então, ser construídas as paredes, as aberturas e o teto, dando funcionalidade à casa. Se desde a fundação da obra houver irregularidades, com falhas e defeitos não corrigidos, todas as etapas da construção a seguir também serão prejudicadas. Ademais, o custo para se corrigir esses defeitos e o tempo necessário para arrumar as falhas são mais altos e mais difíceis quanto mais avançada estiver a obra. Por outro lado, se as correções de problemas forem realizadas ainda na construção da base, o resultado final poderá ser o mais próximo do desejado possível. Assim, as capacidades que começam a se desenvolver ao longo dos primeiros anos são pré-requisitos fundamentais para o sucesso ao longo de toda a vida, na escola, no trabalho e tem repercussão para toda a sociedade.

A promoção do desenvolvimento integral saudável, com nutrição e cuidados de saúde adequados, ambiente familiar afetivo, seguro e estimulante, relações estáveis e incentivadoras, além da oferta de educação de qualidade, fornecem o alicerce para que cada criança viva bem no presente e alcance seu potencial pleno no futuro.

Na Primeira Infância, toda a aprendizagem acontece por meio das relações que a criança experiencia. Os cuidadores devem estar atentos e devem dispender TEMPO interagindo com as crianças. Não é necessário que se invista em tecnologias, brinquedos e materiais dispendiosos. As crianças aprendem através de brincadeiras desafiantes e prazerosas, por experiências que estimulem seus sentidos e em contextos nos quais se sintam atendidas, protegidas e amadas.

Autora: Juliana Antola Porto é Médica Neuropediatra e Mestre em Neurociências pela PUCRS, foi visiting scholar no Programa de Mente, Cérebro e Educação da Harvard Graduate School of Education e research fellow do Laboratório de Neurociências Cognitivas do Boston Children’s Hospital, Harvard Medical School. É membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância. Integra a equipe Mindset Education. http://mindseteducation.com.br/

http://afterschool.net.br/

JulianaAntola

Fontes:

FMCSV:

http://www.fmcsv.org.br/

http://www.fmcsv.org.br/pt-br/acervo-digital/Paginas/o-impacto-no-desenvolvimento-da-primeira-infancia-sobre-a-aprendizagem.aspx

Center of the Developing Child-Harvard http://www.developingchild.harvard.edu/resourcecategory/portuguese-resources/

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Teste a qualidade da escola do seu filho com o checklist ANE

A escola do seu filho é segura? Possui um sistema de educação adequado à idade de cada criança? Utilize a checklist abaixo para conferir se a escola do seu filho cumpre algumas das diretrizes seguidas pelo selo ANE – Acreditação Nacional Escolar, a primeira e única selo de qualidade para escolas infantis no Brasil.

Todos nós concordamos, não existe nada mais importante em nossas vidas que os nossos filhos! Acreditamos que todas as escolas deveriam ser escolas ANE, todas as crianças têm o direito de passar os primeiros anos de vida, moldadas, dentro de um ambiente escolar seguro, pró ativo e de alta qualidade.

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Só clica na imagem, imprimir e usar! Porque seu filho merece o melhor!

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Competências Acadêmicas X Socioemocionais

Leticia Guimarães Lyle, Diretora Pedagógica

Tem sido frequente a discussão de que na escola devem ser trabalhadas não apenas as competências acadêmicas, mas também as competências Socioemocionais como forma de potencializar a aprendizagem dos alunos.

Atualmente existem alguns programas voltados para esse ensino no Brasil e no mundo. Iniciativas nacionais começam a levar esses programas para escolas particulares, municipais e estaduais em projetos que visam melhorar as competências cognitivas e não cognitivas dos alunos e prepará-los para enfrentar plenamente o Século XXI.

A seguir estão descritas algumas dessas competências e o que elas favorecem em relação às aprendizagens de crianças e jovens.

Autoconhecimento é a capacidade de reconhecer sentimentos, interesses e pontos fortes, e manter um bom nível de eficiência pessoal. Reconhecer dificuldades e facilidades (Payton et al., 2000) e posicionar-se em relação a isso influencia escolhas acadêmicas e a persistência para superar dificuldades.

Autocontrole permite a indivíduos lidar com situações de stress diárias e controlar suas emoções em situações difíceis. Essa capacidade de regular emoções impacta a memória e os recursos cognitivos utilizados em tarefas acadêmicas.

Sociabilidade permite que os indivíduos levem em consideração perspectivas alheias e sejam empáticos com outras pessoas. Alunos com habilidades sociais são mais propensos a apreciar diferenças e semelhanças nos outros.

Competências de Relacionamento permitem que alunos desenvolvam e mantenham relacionamentos saudáveis com outros, incluindo as habilidades de resistir a pressões sociais negativas, resolver conflitos interpessoais e buscar ajuda quando necessário.

Tomada de Decisões com Responsabilidade permite que alunos pensem sempre em múltiplos fatores, tais como: valores éticos, respeito e segurança (física e emocional) na tomada de decisões.

Brincadeira : O que ensino a um colega? E o que aprendo com ele?

Realizar, coletivamente e sob a supervisão da professora, uma lista com brincadeiras sugeridas por cada criança. Depois, sorteia-se o nome de uma criança da sala. A criança chamada deverá escolher um jogo da lista que queira aprender. O colega que nomeou o jogo ensinará aos colegas, a brincadeira. Depois, ele pedirá a outro colega que faça o mesmo. E assim, sucessivamente, até que todos tenham ensinado sua brincadeira e aprendido outra.

Autora: Leticia Guimarães Lyle é a Diretora Pedagógica do AfterSchool Educação, mestra em Desenvolvimento de Currículo e Educação Inclusiva com especialidade em Competências Socioemocionais pelo Teachers College da Columbia University. É sócia fundadora do Mindset Education, grupo que trabalha com projetos educacionais, atualização de currículo e formação de professores. Responsável pela adaptação do Programa Compasso Socioemocional e coordenadora de curso de Pós Graduação do Instituto Singularidades.

Leticia Lyle

Fontes

Porvir: http://www.porvir.org/especiais/socioemocionais/     (2016-05-05)

CASEL: http://www.casel.org/social-and-emotional-learning/core-competencies/     (2016-05-05)