A Disfluência, parte I

A gagueira é uma dificuldade da fala que pode ocorrer durante a infância, aproximadamente dos 3 aos 6 anos. Muitos pais sentem-se aflitos ao escutar seu filho repetir sílabas, palavras ou até realizar alguns bloqueios e tensões durante a fala. A gagueira pode ser passageira e ter recuperação espontânea durante o desenvolvimento da linguagem. No entanto, é importante saber como conduzir e agir com nossos pequenos durante este período.

Como surge a gagueira (disfluência)?

Luciana Vieira Dias Alves de Oliveira, Fonoaudióloga

Desde o nascimento, a criança comunica-se com o mundo que a cerca. A princípio, tem apenas o choro para satisfazer suas necessidades. Aos poucos, começa a brincar com sons, emitir pequenas palavras e imitar as pessoas ao seu redor. Usa uma ou duas palavras para nomear um objeto ou descrever uma situação concreta até começar a formar frases cada vez mais complexas.

Cada criança tem seu ritmo para aprender a falar. Algumas, mais falantes e ativas, podem adquirir vocabulário, regras gramaticais e aprender os sons de sua língua mais depressa do que outras. De maneira geral, esse processo é bastante complexo uma vez que os movimentos da fala são os mais finos que o corpo humano realiza e o aparecimento de bloqueios ou hesitações pode ser absolutamente natural. Essa hesitação evidencia o processo que a criança realiza para poder comunicar-se: ela tem em mente uma idéia ou a imagem de uma situação e busca palavras, elabora frases, procurando tornar sua comunicação compreensível ao ouvinte. Isso envolve a habilidade para articular as palavras apropriadas, além do componente emocional que existe em qualquer relação interpessoal.

Entretanto, em alguns momentos ou período do desenvolvimento da linguagem a criança pode passar pelo que chamamos de “gagueira de desenvolvimento”. Isto faz com que ela repita silabas, palavras ou prolongue sons de maneira que incomoda os pais ou pessoas que convivem com ela. Eles passam a ouvi-la com ansiedade, e por vezes sugerem certos comportamentos que, acreditam beneficiá-la como: “fale devagar”, “pense antes de falar”, “respire fundo”, “repete tudo porque não entendi”, “calma”.  Ou pior, fazem críticas severas, imitações, colocam apelidos e completam frases.

Diante a estes comportamentos o que poderia ser uma gagueira de desenvolvimento, ou seja, desaparecer e ter uma recuperação espontânea pode tornar-se uma gagueira persistente e permanecer até a vida adulta.

A criança começa a acreditar que a maneira como ela fala não é aceitável. Não consegue perceber onde erra e, como resultado começa a desenvolver uma tensão crescente, com esforços para falar “certo”. Quanto mais sentir-se tensa e tentar fazer “coisas especiais” para falar, mais as pessoas – ela – avaliarão esta conduta como falar errado. A criança então começa a tomar cuidado, falar mais devagar, esforçar-se bastante para dizer as palavras. Se sentir que vai repetir ou prolongar um som, simplesmente pode deixar de dizê-lo e assim evitar a comunicação com seus colegas, professores e pais. É visível aos ouvintes que a criança está tensa e luta enquanto fala. Este comportamento tenso é uma maneira de lidar com a gagueira. A idéia de que ela fala mal e precisa esforçar-se para dizer algo se torna presente. Com isso podem surgir tiques, tremores e movimentos corporais, como bater os pés, virar o pescoço, pressionar lábios, piscar os olhos entre outros, além de truques para disfarçar a gagueira.

A fala que, antes era  um comportamento espontâneo e prazeroso passa a  tornar-se um ato de sofrimento. A criança pode tornar-se angustiada e evitar situações em que tenha que se expressar em público ou compartilhar opiniões. Devemos ter em mente que se a gagueira tornar-se uma preocupação, a cada nova situação a idéia de que o indivíduo não é capaz de falar bem, confirma a presença de sua inabilidade articulatória e antecipa a ocorrência de novas falhas. Passa a planejar uma atividade que seria espontânea e, com isso, acrescenta uma tensão desnecessária e prejudicial ao ato de falar. Novamente ressalta-se a possibilidade da gagueira de desenvolvimento, o que poderia permanecer apenas durante um período da infância tornar-se uma gagueira persistente.

Que fatores contribuem para agravar o problema?

A gagueira é uma desordem multidimensional – interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. A princípio podemos dizer que pode haver maior ou menor possibilidade individual de tornar-se gago que será atenuada ou reforçada pelo ambiente. Pais que não têm uma aceitação natural e são exigentes sobre a forma como o filho se expressa, em geral, reagem com ansiedade e temor às primeiras hesitações. Ou então, famílias que têm uma dinâmica conturbada, passando por períodos de grandes conflitos entre seus membros, com divergência de opiniões e valores. Ou ainda, famílias que possuem membros gagos e, ao menor sinal já se preocupam com a possibilidade da criança ter herdado o problema. Entretanto, crianças com famílias bem estruturadas podem ser extremamente sensíveis, inteligentes e auto-exigentes. Às vezes, assumem mais responsabilidades do que seria adequado à idade ou fazem comparações com irmãos mais velhos, que apresentam habilidade em alguma atividade, com conclusões negativas a seu respeito.

Do acúmulo desses vários fatores, o que poderia ser um período de insegurança passageiro, vai se solidificando. A imagem que um indivíduo constrói a seu respeito é formada pelas experiências de prazer e frustração vividas na infância. Se suas experiências de angústia forem mais fortes, o que poderia ser uma gagueira de desenvolvimento infantil, pode  transformar-se em gagueira persistente, o que podemos considerar que não seja mais um processo normal, mas um fator agora preocupante.

Agora, como ajudar a criança? Fiquem de olho, no artigo da próximo semana, Luciana Oliveira vai explicar e dar dicas de como melhorar a gagueira. Não perca o segunda parte neste artigo!

Luciana Vieira Dias Alves de Oliveira, fonoaudióloga educacional e com atuação clínica em distúrbios da voz, fala, processamento auditivo central e distúrbios de leitura e escrita. Ministra cursos e palestras de formação para professores de Educação Infantil e profissionais que atuam com a comunicação e expressividade vocal. Docente do curso de licenciatura em música e Pedagogia da FAC- FITO. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC/SP, especialista em voz pelo CEV, aperfeiçoamento em Processamento Auditivo Central e em fonoaudiologia hospitalar pelo Hospital do Servidor Público Estadual. Graduada pela Universidade Bandeirantes de São Paulo em 2000. Vencedora de melhor trabalho em atuação com professores com distúrbios vocais no Congresso Internacional de Portugal em 2007. www.oliveiraluciana.com.br / fonoluciana@hotmail.com

luciana Fono

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