A Disfluência, parte II

A gagueira é uma dificuldade da fala que pode ocorrer durante a infância, aproximadamente dos 3 aos 6 anos. Muitos pais sentem-se aflitos ao escutar seu filho repetir sílabas, palavras ou até realizar alguns bloqueios e tensões durante a fala. A gagueira pode ser passageira e ter recuperação espontânea durante o desenvolvimento da linguagem. No entanto, é importante saber como conduzir e agir com nossos pequenos durante este período.

Como ajudar

Luciana Oliveira, Fonoaudióloga educacional

Cada criança é uma criança, cada família é uma família, portanto não existem receitas de “como fazer”. As sugestões que serão apresentadas estão diretamente relacionadas com a promoção da fluência e da interação comunicativa.

Prestar mais atenção ao conteúdo do que a criança está falando do que a forma com que ela o faz: observem quais tópicos abordados pela criança chamam mais sua atenção; se vocês prestam atenção ao todo ou só partes da mensagem; se deixam a criança terminar de falar antes de responderem; se estão apressando a criança para terminar de falar e  se olham para  ela quando está falando.

Ajudar a criança a falar mais suavemente: a família é a melhor forma de estimular a fluência, por isso vocês devem tentar moldar sua própria fala, e estabelecer um padrão mais lento e relaxado quando conversarem com a criança. Não falem tão devagar de modo que sua fala pareça estranha, mas mantenha-a mais lenta e com boas entonações, fazendo várias pausas ao falar. Freqüentemente a criança reflete o estilo de vida da família.

Parar um segundo antes de responder: tentem parar um segundo ou mais antes de responder ou falar com a criança, esse tempo vai fazer com que a ela se sinta menos preocupada e fique mais relaxada, pois será um tempo que necessita para processar e também buscar novas palavras para manter uma comunicação mais tranquila. Não faça perguntas simultaneamente, principalmente no período de saída escolar. Pergunte, espere sem ansiedade, aguarde a resposta e continue.

Reservar um tempo, diariamente para dar atenção exclusiva à criança: a fala lenta, bem entonada e relaxada pode ser mais eficaz quando a criança tiver um tempo de atenção dos pais somente para ela, sem ter que competir com os outros.

Ler e contar histórias sempre que possível: ler em voz alta e contar história também enfatiza o prazer da fala. Leiam as histórias  favoritas da criança, deixem que ela termine algumas frases ou as reconte com suas próprias palavras, mas somente se ela sentir-se estimulada. Evitem contar histórias assustadoras, mesmo que ela goste.

Manter contato de olho natural enquanto a criança fala: converse com a criança naturalmente e, se ocorrer uma disfluência (gagueira), mantenha a conversa sem criticá-la ou corrigi-la.

Encorajar a criança a falar: deixem a criança falar abertamente. Isso vai demonstrar que vocês, pais, se satisfazem com qualquer desempenho lingüístico que ela possa apresentar e não mostrem ansiedade caso ela gagueje, haja naturalmente.

Agir naturalmente com a criança que está gaguejando é extremamente importante, pois assim ela não se preocupará com a maneira de falar, ato que não despertará algo errado em sua comunicação.

O que prejudica a fluência?

Algumas condutas podem prejudicar a comunicação fluente da criança e não contribuir para a prevenção da gagueira persistente: dizer para relaxar, acalmar-se ou pensar antes de falar; chama-la de gaga; criticar ou corrigir sua fala; completar o que a ela está falando ou interrompê-la enquanto o faz; apressa-la quando estiver tentando falar; preocupar-se demasiadamente com a gagueira e exigir demais dela.

Tente prestar mais atenção ao que a criança diz do que como ela diz. Não a tratem como se tivesse um problema sério, incapacitante. Evitem falar muito rápido e de forma difícil com a criança; demonstrar estar desconfortável, impaciente ou irritado com a forma de falar; discutir a gagueira da criança com outras pessoas; não comparar sua fala com a do irmão ou de outras crianças; interromper seu discurso e solicitar para começar tudo de novo porque não compreendeu nada.

Lembrem-se de que muitas crianças que apresentam disfluências tem grande probabilidade de recuperação espontânea desde que saibamos cuidar de sua fala com carinho e paciência. Aceitar a disfluência e reagir apropriadamente quando seu filho falar é dar a ele a liberdade de desenvolver sua linguagem e comunicação.

É importante lembrar que 

Grande exigência em relação a um comportamento gera ansiedade e preocupação quanto ao resultado. Se, ao andarmos de bicicleta, ficamos tensos e preocupados com a possibilidade de cair, teremos muito mais chance de cair do que se relaxarmos e nos preocupamos exclusivamente com os movimentos que devemos realizar. Dessa forma, o ato de pedalar fluirá com mais facilidade, sem força, nem tensão. Da mesma forma, se nos concentramos em falar o mais fluentemente possível, estaremos aumentando o nível da tensão dos músculos orais de todo o corpo, interrompendo as ações normais e espontâneas do ato de falar.

É preciso compreender os sentimentos da criança em relação à sua fala. A sensação de vergonha, culpa ou medo de comunicar é construído a partir de reações e opiniões das pessoas com quem ela se relaciona. Mostrar disponibilidade em ouvir, sem corrigir ou interromper, será uma atitude acolhedora, de receptividade de sua forma de ser e de falar, o que estimulará a criança a continuar se expressando.

A gagueira tende a desaparecer espontaneamente durante a infância. No entanto, se seu filho estiver passando por uma gagueira por um período longo, não ignore esta dificuldade. Procure um fonoaudiólogo especializado, pois ele será o profissional ideal para avaliar a linguagem de seu (a) pequeno e orientá-lo.

A autora, Luciana Vieira Dias Alves de Oliveira, é fonoaudióloga educacional com atuação clínica em distúrbios da voz, fala, processamento auditivo central e distúrbios de leitura e escrita. Ministra cursos e palestras de formação para professores de Educação Infantil e profissionais que atuam com a comunicação e expressividade vocal. Docente do curso de licenciatura em música e Pedagogia da FAC- FITO. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC/SP, especialista em voz pelo CEV, aperfeiçoamento em Processamento Auditivo Central e em fonoaudiologia hospitalar pelo Hospital do Servidor Público Estadual. Graduada pela Universidade Bandeirantes de São Paulo em 2000. Vencedora de melhor trabalho em atuação com professores com distúrbios vocais no Congresso Internacional de Portugal em 2007. www.oliveiraluciana.com.br / fonoluciana@hotmail.com

luciana Fono

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