Situação imaginária no cotidiano da Educação Infantil

Kelly Flores

Na Educação Infantil, explorar situações imaginárias nas aulas conduz a uma participação mais ativa das crianças nas atividades propostas, além de potencializar-lhes o desenvolvimento, tanto no aspecto cognitivo quanto no afetivo-social, focalizando a aprendizagem significativa. A brincadeira simbólica é pré-condição para aquisição futura dos jogos de regras, na medida em que, nela, a criança assume diferentes papéis e se subordina às regras implícitas de ação da situação representada.

Apesar de a brincadeira simbólica ser considerada importante na Educação Infantil, de um modo geral, ela acontece em horários marginais, nas trocas de atividades ou no dia do brinquedo, não havendo preocupação em estabelecer planejamento efetivo para essa atividade no dia-a-dia das crianças.

Uma das hipóteses para explicar a reduzida presença da brincadeira simbólica na escola é o fato de não conseguirmos mensurar resultado imediato quando as crianças estão brincando, como acontece, por exemplo, na montagem de um quebra-cabeça, ou quando realizam saltos consecutivos na corda ou, ainda, quando resolvem e deixam registrado um problema matemático.

Vygostsky e Leontiev estudaram o desenvolvimento da brincadeira na Educação Infantil e o quanto ela é fundamental para alavancar o desenvolvimento cognitivo das crianças. Eles afirmam que a situação imaginária faz com que a criança controle seu comportamento, experimente habilidades novas e realize ações para além de seu comportamento habitual. Nesse sentido, é como se, do ponto de vista cognitivo, a criança fosse mais velha do que realmente é.

Em uma brincadeira de supermercado, por exemplo, em que há jogo de papéis, cada “personagem” age de um modo diferente, a partir de um conjunto de regras e de padrões de comportamento que precisam ser cumpridos. Nessas situações, a criança é forçada a ser coerente, a ser lógica. Se ela não agir de acordo com as regras de comportamento estabelecida, ela é advertida por outro parceiro.

Além disso, brincar coletivamente faz com que as crianças negociem, formulem hipóteses, contestem e cheguem a um acordo que pareça viável a todos os envolvidos, favorecendo, assim, o processo de descentramento, que é a capacidade da criança se colocar no lugar do outro.

O que podemos oferecer às crianças para que essa prática da atividade lúdica possa ser incorporada satisfatoriamente no cotidiano escolar?

Um dos caminhos é oferecer a elas materiais não estruturados como, por exemplo, plástico (copos, pratos, tampa de refrigerante, potes com tampas, funis, colher etc.); papelão (caixinhas, cilindros de diversos tamanhos etc.); metais (correntes tampas de panelas, panelas, forminhas de empada, espremedor de limão, de batata etc.); madeira (cubos, círculos, tocos de madeira, colher de pau, prendedor de roupa etc.); e tecidos de diferentes tamanhos. Além disso, também podem ser oferecidos materiais estruturados, como fantasias, bonecos, bonecas, carrinhos, caixa de ferramentas, kits de cabeleireiro, de médico, de bombeiro, de casinha, de escritório, de supermercado etc.

O papel do educador, neste caso, é realizar uma boa seleção de materiais, garantindo que estejam em bom estado de conservação. Outro ponto indispensável é a participação do educador nas propostas. Ele deve brincar e participar das atividades, demonstrando não só prazer em fazê-las, como também estimulando as crianças a participarem.

No entanto, para que isso se dê, é necessário que o educador supere o interesse no “resultado objetivo” e na busca pela “excelência”, conheça o que são os jogos simbólicos e como eles possibilitam o desenvolvimento das crianças, reconhecendo, assim, a importância da ludicidade na vida da criança Educação Infantil.

 

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As fotografias a seguir têm autorização de uso de imagem pelos pais das crianças.

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A autora, Kelly Zoppei Flores, é mestre em Educação Física pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Educação Física Escolar. Trabalha com formação de professores em Prefeituras do interior de São Paulo e Colégios particulares de São Paulo, ABC Paulista e cidades do estado de Goiás. Coautora em coleções de livros didáticos, na área de movimento para Educação Infantil e primeiro ano do Ensino Fundamental (Editora Salesiana), autora da coleção Ciranda Infantil, área de movimento, e coautora da coleção Ciranda Fundamental I, Educação Física, pela Editora Mathema. Criadora do brinquedo Simbólico para Educação Infantil e séries iniciais do Fundamental I. Colaboradora da Equipe Mindset Education.

http://mindseteducation.com.br/

http://afterschool.net.br/

Fontes:

VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente. São Paulo, Martins Fontes, 1987.

VYGOTSKY et al. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar. São Paulo, Ícone/Edusp, 1988.

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