A Construção das Relações na Educação Infantil

Aleta Adriana Becker Bortowski

Mais do que nunca, na escola, discutimos sobre como proporcionar um ambiente de sala de aula harmônico, respeitoso e cooperativo. Disciplina, liberdade, direitos, deveres, autoridade, entre outras, são palavras muito empregadas que carregam conceitos importantes.

Na Educação Infantil é necessário que na relação estabelecida entre o aluno e o educador, haja afetividade, generosidade e uma aposta positiva por parte do adulto, possibilitando a construção de um ambiente propício à aprendizagem. A afetividade e a generosidade são elementos que favorecem a gradual construção do respeito mútuo e das relações de amizade.

Cabe ao educador, intencionalmente, modelar situações em que são empregadas condutas colaborativas e desenvolver um olhar cuidadoso, procurando conhecer as singularidades de cada aluno para estabelecer uma relação de confiança e preparar um ambiente acolhedor e de respeito às diversidades.

Jean Piaget, biólogo, psicólogo e estudioso do desenvolvimento do pensamento infantil, afirmou que a construção da autonomia moral ocorre por etapas. Na primeira, denominada anomia, que ocorre no período inicial da vida da criança, sua conduta dirige-se à satisfação de suas necessidades e não há cumprimento de regras. Na segunda, denominada heteronomia, a imposição às regras é externa, e ela obedece ao adulto para receber recompensas ou evitar castigos, mas não há acordos mútuos. Nesse contexto, estudos mostram a importância das mediações do educador e da construção do ambiente moral, possibilitando atividades e posturas reflexivas, de maneira a permitir aos alunos caminharem para a construção de uma moral autônoma.

Para exemplificar a importância das intervenções e mediações do educador na relação com o grupo de alunos, apresentarei e comentarei uma cena que poderia acontecer no cotidiano da sala de aula, com crianças de cinco anos.

Na hora do lanche João pega a lancheira e, abrindo a garrafa térmica, coloca suco em sua caneca. Ao ver o suco, num gesto brusco, tomba a caneca sobre a mesa do lanche. João parece bastante contrariado e começa a chorar. Lucas que está ao seu lado, fica com seu sanduíche todo molhado.

 Nesse momento a professora se dirige a João e lhe pergunta:

 – O que houve João?

 – Minha mãe mandou, de novo, suco de uva e ela sabe que eu não gosto!

A professora intervém e conversa com João para acalmá-lo e procurar uma maneira para encaminhar, da melhor forma possível, a situação. Diz a João:

 – Tudo bem, você não gosta de suco de uva e você já falou com a sua mãe sobre isso.  Mas será que foi ela quem organizou seu lanche hoje? Precisamos saber sobre isso, certo? Vamos ver se há outro suco ou você poderá tomar água e depois podemos falar com sua mãe. E, olhe, o seu colega Lucas, parece estar aborrecido porque o sanduíche dele ficou todo molhado quando o suco caiu.

 O papel da professora foi procurar levar João a compreender que os seus sentimentos são legítimos, e que ele pode pensar e agir sobre o que aconteceu de para evitar que o suco que ele desgosta não seja colocado, outra vez, em sua lancheira. Além disso, pode auxiliá-lo a considerar as consequências que as ações provocam, buscando outras maneiras para resolvê-las. Novamente ela se coloca:

 – O que você poderia ter feito ao invés de bater na caneca? Como podemos ajudar o Lucas? Ele ficou sem lanche.

 Poder refletir sobre as várias possibilidades de resolver um problema é importante para a tomada de decisões, ou seja, para a construção da autonomia e o entendimento de que podemos dar conta das situações. Encorajar a criança a falar sobre seus próprios sentimentos, ao invés de reagir a eles, julgando-os, é fundamental! 

 Mediante a solicitação da professora, João responde:

 – “Ele pode comer essas bolachas que eu também não gosto!”. Lucas, eu fiquei com raiva! Mas não quis fazer isso de propósito…

 No caso da criança não conseguir demonstrar ainda alguma maneira para resolver, podemos perguntar se ela tem outro lanche para oferecer, ou ainda, se algum colega poderia auxiliar com isso.

 Lucas aceita a bolacha do amigo, mas João diz que está com fome e que vai ficar sem lanche.

 Diante da solicitação de João, alguns colegas levantam-se e oferecem a ele partes do lanche. Outros fazem o mesmo com o colega Lucas.

 A professora modelou o que fazer e essa é a autoridade exercida com generosidade. Ela entende a raiva de João, mas o ajuda a refletir sobre outras maneiras de lidar com a situação.

No dia seguinte ou alguns dias depois, a professora pode propor uma atividade que proporcione ao grupo pensar sobre maneiras de manifestar emoções, conversando sobre a situação vivenciada, após conversar com o aluno João sobre a possibilidade de ele ter o auxílio dos colegas para pensar outras saídas e poder, também, se explicar com o grupo. Nesta situação, poder reparar e refletir sobre as emoções e os sentimentos é o que deve imperar, ao invés da atribuição de juízos de valor de uns para com os outros.

Apontar figuras com imagens de crianças felizes, tristes, chorosas, solicitando que os alunos procurem relacioná-las a possíveis acontecimentos, é uma maneira de colocá-los em contato com os sentimentos próprios e de outros. A leitura de histórias nas quais possa se discutir as atitudes de seus protagonistas, também se configura como uma excelente oportunidade de refletir e elaborar saídas para as situações vividas e para as que ainda estão por vir.

Dentro de um contexto colaborativo a criança passa a exercer seu pensamento, curiosidade, criatividade e faz perguntas em busca de esclarecimentos, passando a se conhecer melhor, quesito essencial para poder respeitar o outro. Na construção das relações interpessoais, emprega o respeito, valida a autoridade firme e afetiva e vai, aos poucos, tornando-se mais autônoma e livre. A liberdade pressupõe responsabilidade e compõe uma das facetas do pensamento crítico.  Reconhecer-se e se relacionar com outros, conseguir pensar sobre a perspectiva desses outros – ainda tão nova – lhe possibilitará o exercício do pensamento crítico que se desenvolverá ao longo de sua escolaridade e no decorrer de sua vida.

aletabortowski

A autora, Aleta Adriana Becker Bortowski, é Graduada em Pedagogia, com especialização em alfabetização fundamentada nos estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, atua na educação há 20 anos, nos segmentos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Como formadora de professores e gestores, trabalhou junto ao Instituto Vila Educação, no Programa Compasso Socioemocional. Foi Coordenadora de Campo no Projeto Sementes Brilhantes. É colaboradora das Equipes:  http://mindseteducation.com.br e http://afterschool.net.br

Fontes:

FREITAS, L. B. L. Autonomia moral na obra de Jean Piaget: a complexidade do conceito e sua importância para a educação, 2002. In: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/19511. Acesso em 18/12/2016.

La Taille, Y. de. A Importância da Generosidade no Início da Gênese da Moralidade na Criança, 2004. In: http://www.scielo.br/pdf/prc/v19n1/31287.  Acesso em 07/12/2016.

PIAGET, J. Epistemologia Genética. SP: Martins Fontes, 2007.

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