Entre livros, entre linhas…

Mara Parisi de Moura

As palavras lidas e faladas de uma obra podem se tornar fantasias ou verdades absolutas diante do leitor e de quem as escuta. A leitura faz parte da criação, da imaginação e do conhecimento do ser humano.

Quando falamos sobre leitura nos referindo a crianças e adolescentes, logo nos remetemos ao mundo escolar. No entanto, esse espaço não é o único que privilegia (ou não) essa prática.

A responsabilidade cabe a todos os âmbitos de relações que crianças e jovens estabelecem, mas, claro, a instituição escolar tem seu peso. Na relação diária que acontece numa das vertentes mais intensas da sociedade, a escola, ela se faz imprescindível pelo poder de sensibilizar. Entendida como atitude, estratégia, reflexão e renovação perante a comunidade em que estamos inseridos, é também ferramenta de participação histórica e cultural.

No contexto escolar, a leitura exerce o papel de direito, oferecendo oportunidade a todos. O educador, mediador da leitura, propõe estratégias significativas para a construção de conhecimentos, autonomia e saberes que se ampliam para outros campos leitores.

Os espaços de aprendizagem são inúmeros, assim como os interlocutores. Desde muito pequenas, as crianças têm oportunidade de se relacionar com o livro, seja de maneira superficial ou intencionalmente aprofundada. Os adolescentes e jovens parecem ter menos contato com ele, embora, muitas vezes sejam sutilmente forçados pela condição sumária do ingresso na faculdade. O fato é: em que lugar tudo isso se perde, já que embora alfabetizados, os jovens e adultos não incorporam a prática da leitura, não leem livros, jornais, não se apropriam da leitura?

A proposta da informação por meio da leitura rápida, objetiva e muitas vezes visual na revolução tecnológica e científica em que vivemos, está posta e acessível, e tem seu valor. É no mínimo sedutora para crianças, jovens, adultos e, por vezes, ferramenta indispensável.

Em contrapartida, o conhecimento adquirido através da leitura reflexiva, subjetiva, aprofundada, tem sido cada vez mais escasso.

O que podemos esperar de um mundo iletrado de reflexão? De um mundo pouco aprofundado de assuntos? Minimamente uma superficialidade.

E de que vale um país de sujeitos superficiais?

Enquanto cidadãos pais, educadores responsáveis, temos o compromisso de proporcionar boas situações de leitura, disponibilizar livros e promover um diálogo que favoreça aos jovens reconhecer a sua e as demais culturas. Culturas de formação e não apenas de informação.

O poder que a leitura proporciona é enorme, não somente por dar acesso a pessoas distantes e possivelmente mortas há muito, mas também por permitir o ingresso em mundos que, de outro modo, não seriam experimentados, que, de outro modo, não existiriam. (SMITH, 2003)

Livros disponibilizam a leitura e a descoberta de mundos. E, o conhecimento e vivência destas diversas possibilidades descortinadas pela leitura nos permitem reconstruir sentidos, adentrar em outras e diversas realidades e ampliar nosso repertório. Não há outra forma de penetrar em campos tão distantes ou próximos que não seja por meio da leitura.

Possuímos a necessidade e a capacidade de acionar as funções cerebrais essenciais para potencializar qualquer compreensão de mundo. E viajar! A princípio pode-se realizar um passeio descompromissado e, gradualmente, se descortina uma cor diferente, um brilho, um rio, um mar… Percepções, sentidos, cores, sabores e aromas passam a ocupar o imaginário. E a viagem segue, tornando-se mais interessante… Vamos conhecendo coisas, lugares, fatos, realidades, sonhos, aos quais jamais teríamos acesso se não pudéssemos viajar… E, então, tudo se transforma. A viagem não tem mais volta e estamos preparados e sedentos pela próxima!

A formação leitora é princípio fundamental de um cidadão autônomo, reflexivo e sujeito de fato da sua história. História essa que começa no ventre e que pode, a partir desse momento, ser encantada e encantadora. A história da vida se confunde com a história dos livros e historicamente o processo de descoberta acontece e vai tomando corpo. Precisamos ponderar as entrelinhas e assumirmos o lugar da responsabilidade pelas crianças e jovens que farão o novo mundo.

Certos de que a leitura é uma atividade social, cabe a nós, fomentar a leitura em casa, nos clubes de leitura, nas bibliotecas, nos espaços comunitários, nos empréstimos, nas trocas e nos presentes. Em cada ambiente do convívio de crianças e jovens, o papel do adulto, sujeito mediador é fundamental e, acima de tudo, uma referência. Por isso, antes de pretendermos fazer com que leiam, necessitamos rever nossas ações enquanto adultos-referência. Essa condição disposta e dialógica pode potencializar o desenvolvimento de outros cidadãos leitores.

Sempre há o que se esperar e sempre há o que oferecer. E que esse novo mundo seja marcado pela troca e pela transformação, por meio do conhecimento, descobrimento e desbravamento de novos mundos.

 

Mara Parisi de Moura

Mara Parisi de Moura

Pós-graduada pela PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e graduada nos cursos de Pedagogia e Educação Física, atua na educação há 30 anos. Como educadora trabalhou na Creche Central da USP, Ong Reciclar e instituições particulares. Como formadora de professores e gestores, trabalhou junto à Escola Vera Cruz (ILHA), ITD (Instituto Tecnológico Diocesano), PLURAL Assessoria (POSLs do município de São Paulo), Fundação Lemann e Comunidade Educativa CEDAC. Atualmente coordena a Educação Infantil na escola Ofélia Fonseca. É colaboradora das Equipes: http://mindseteducation.com.br/     http://afterschool.net.br/ 

 

Fontes:

COLOMER, Teresa. A Formação do Leitor Literário. Narrativa infantil e juvenil atual. São Paulo: Global, 2010.

SMITH, F. Compreendendo a leitura: uma análise psicolinguística da leitura e do aprender a ler. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003.

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