Adaptação: exercício de transformação

Maria Lucia Padilha

O processo de adaptação faz parte da história humana e de outros seres biológicos. Adaptar-se significa passar por uma transição, ajustando-se ao novo, ao desconhecido, ao que lhe é estranho. Portanto, ao longo da vida nos adaptamos a cada novo momento ou desafio.

No ambiente escolar, tanto no período da Educação Infantil como no ingresso em outras fases da Educação Básica, família, educadores e estudantes vivenciam a complexidade de sentimentos que envolvem este processo.

Durante o processo de adaptação de uma criança pequena à escola, constroem-se diferentes vínculos entre os vários atores – alunos, família e professores. Por isso, planejar a chegada das famílias e a participação de cada um dos participantes é muito importante para que a experiência possa ser vivida com tranquilidade e se transforme em um marco positivo de ingresso da criança em um novo espaço social e educativo. Quando a experiência é positiva, crianças e famílias se sentem seguras e confortáveis, o que favorece a gradual vinculação com os adultos e pares com os quais o aluno conviverá no novo ambiente.

Outro aspecto importante a se destacar sobre a adaptação é o fato de que todos os envolvidos no transcurso interiorizam características do outro e se reconstituem se arranjando de formas diferentes; todos se modificam e se complementam. Mas, para que isto ocorra a contento todas as partes envolvidas devem confiar, acreditar, ter convicção de que o trabalho que realizam garanta à criança todos os direitos e possibilidades para se desenvolver com autonomia, se constituir como ser humano, compreender o mundo em que está inserida, expressar-se por meio das várias linguagens e conhecer o construto cultural da humanidade.

Como professora de Educação Infantil, vivenciei algumas situações de adaptações, algumas muito tranquilas e satisfatórias e, outras, mais complexas e desafiadoras. Relatarei uma delas para ilustrar como a parceria entre a família-escola-professora é fundamental para que todos superem, com êxito, este período.

Trabalhava com um grupo de crianças de 4 anos. No início do ano letivo, após permanecer e acompanhar o filho por um período, a mãe de um aluno que ingressara na escola, mostrava dificuldade em se despedir do mesmo. O menino, por sua vez, também mostrava resistência em deixá-la. Para conseguir deixá-lo, por vezes sua mãe aproveitava um momento em que estivesse distraído e saia sem se despedir ou tentava convencê-lo a permanecer conosco, dizendo que se ele ficasse bem traria presentes na saída, quando ambos iriam para casa.

Sabemos que nem sempre é fácil deixar uma criança chorosa na escola ou em qualquer outro ambiente, mas quando a sinalização é dada pela escola – que normalmente conversa com a mãe para mostrar os sinais que observa para fazer tal orientação – é importante que a mãe esteja confiante e que consiga se despedir da criança, confiando-a aos cuidados da escola. Somente a mãe, pai ou adulto responsável pela adaptação pode fazer a transferência e dar permissão para que o educador possa receber o novo aluno.

Para entregarmos uma criança aos cuidados de outro adulto precisamos confiar nele e, nem sempre este processo é vivido com tranquilidade. Precisamos pensar sobre as experiências que tivemos, se estas foram positivas ou não, precisamos conhecer como a escola trabalha, realizar conversas com a orientadora para explicitar os procedimentos que podem favorecer a adaptação do filho e, por fim, fazermos uma despedida seguros de que estamos em um momento do processo de adaptação em que manifestações de desagrado de sua parte, fazem parte e poderão acontecer. O choro da criança no momento da despedida dos pais não é sinônimo de que a criança não ficará bem. Ela pode ter ficado contrariada, preferir que a mãe fique com ela, mas se a entregarmos com segurança, confiantes de que ela desfrutará do espaço e das possibilidades de parceria e aprendizagem oferecidas, com o tempo a despedida ficará mais tranquila. Precisamos confiar na escola e estarmos atentos aos filhos durante seu processo de crescimento e entrada nos espaços de convivência que vão se descortinando ao longo da vida.

Em algumas situações, inclusive, pode ser preciso readaptar a criança à escola. Na chegada de irmãos, na mudança de casa, ou perda de alguém muito querido, as crianças podem se sentir inseguras e necessitar de uma nova adaptação. Escola e famílias devem estar atentas e conversar sempre que necessário.

Na situação que vivenciei com meu novo aluno e sua família, minha ação foi conversar e procurar mostrar à mãe que viver a frustração da separação era importante para o amadurecimento de seu filho, que ofereceríamos todo o acolhimento para que ele compreendesse que o período na escola seria divertido e rico em experiências com seus amigos de grupo e professores. Nos primeiros dias, ele ainda usou o choro ou reações mais explosivas como forma de demonstrar sua frustração, mas no decorrer do processo aprendeu a se acalmar e a procurar no diálogo comigo e outros educadores, nas afinidades com as crianças do grupo, nas diversas possibilidades que o ambiente  lhe oferecia maneiras para lidar com a ausência materna.

Enfatizamos, também, que o discurso da mãe para ajudá-lo a permanecer bem na escola deveria partir do lugar da “confiança” que passaria ao filho de que ele estaria seguro num espaço escolhido por ela, e que havia muitas atividades interessantes para ele fazer comigo, com outros educadores e coleguinhas até que retornasse.

A convivência na escola, com professores, outros adultos e crianças é um primeiro exercício de cidadania, pois oferece à criança oportunidades de escolha e autogoverno. Portanto, o olhar da instituição, a sensibilidade dos educadores envolvidos no processo, a escuta aberta das demandas da família, a segurança dos educadores no processo e a parceria de todos os envolvidos são itens fundamentais para que se inicie uma construção conjunta que favorecerá o percurso dos nossos pequenos na instituição educativa.

Lucia

Maria Lucia Padilha é pedagoga, tendo atuado como professora da rede particular de ensino por vinte anos. Atualmente é professora de Ensino Fundamental e Educação Infantil da Rede Municipal no Estado de São Paulo.

Referências Bibliográficas:

BASSEDAS, Eulália; HUGUET, Teresa & SOLÉ, Isabel. Aprender e ensinar na educação infantil. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. Trd. Cristina Maria de Oliveira.

Dalbem, J.X. e Dell’Aglio, D.D. Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento. 2005.

REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL PARA EDUCAÇÃO INFANTIL (Brasil).Independência e Autonomia. Volume 2.Brasília. MEC.1998.

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